Duas amigas se encontram para o almoço semanal em um restaurante no Centro da cidade. Até aí apenas mais uma rotina urbana se confirma, um rito se cumpre. Uma delas acaba de presentear a outra com um exemplar de seu mais novo livro. A outra, presenteada, folheia rapidamente algumas páginas, não consegue entender alguns pensamentos dançando no fundo de sua cabeça, principalmente o próprio nome impresso em uma das páginas. Alguns momentos se passam entre talheres e sons metálicos, murmúrios ambientais de todo tipo, pausas, lembranças. O almoço termina, o garçon enfim recolhe os pratos, copos, talheres. O assunto da conversa muda mais uma vez. Falávamos agora de um afazer que costuma ser muito menosprezado até por quem tem o dever de promovê-lo, assegurá-lo (editores e editoras, por exemplo), algo considerado desprezível, um trabalho que 'poderia ser feito por qualquer um', ou mesmo, sequer feito: revisão de textos. Decidimos pedir café para ambas, iríamos embora em pouco tempo... O café é servido, a conversa divaga, é feita uma anotação em uma comanda de papel. Um olho se arregala, o espanto percorre a mesa. Em seguida uma mão estende-me a comanda, pede que eu dê também uma olhada. Não escondo meu sorriso irônico. Incrédulas, deparamo-nos com o seguinte: '2 cafeses' escrito em letras bem claras e firmes. Mais uma vez a vida imita a arte, vingando-se.
PARA ALÉM DA BORDA
(des)construindo, (re)dizendo, poetizando,(re)pensando (in)palavras,(in)pressões,(in)presenças dessa, e das outras realidades, por sobre, em cima, para além da borda.
Páginas
PERFIL
- Vânia Vidal
- Alguém que falará sobre literatura, linguagem, poesia, filosofia e tudo o mais que acenar para além da borda
Sexta-feira, Abril 13, 2012
Segunda-feira, Outubro 24, 2011
Crônicas do caderno v.
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| Um dia cai e quebra. |
“-27/09/2011 -terça-feira - primavera - sol - aula”.
Boa noite! São 23: 15 h
Era uma manhã bonita de sol e céu claros quando uma moça de blusa listrada de azul cruzou a rua. Pessoas apressadas cortavam o espaço em todas as direções; a cidade respirava o clamor de mais um dia. Ela não estava atrasada, pelo contrário, era ela quem havia chegado cedo. Era ela quem esperava - e quem espera nunca se atrasa. Alguém pede passagem, alguém diz alguma coisa (qualquer coisa), ela levanta a cabeça, responde, é gentil. E espera. Alguém virá buscá-la para mais um dia de aula no prédio neoclássico da Urca. No entanto, não era por essa pessoa que o ser afogueado de blusa azul listrada esperava - era por uma frase no visor de um celular. Coisa mais mundana impossível. E a frase veio muito tempo depois: o caderno verde já é um bem do passado. - ela constatou, e imediatamente ajustou o tempo do verbo para o que de fato era: era, fora, não é mais. Olha então agora pela janela: há um horto lá fora. Há o Pão de Açúcar, palco do passeio da véspera. Há a aula, a amiga de anos, o professor que a admira de longe; há demais seres e cadeiras. Há o teto também. O ventilador desligado, balouçante. Há o charme da cena matinal de uma sala de aula perto de praia. Há o tempo pairando sobre a folha branca do papel. As faces sonolentas, sobranceiras, blasé, e algumas, desesperadas. Há a noção do que seja o desespero surdo, encerrado nos olhos sonolentos no fundo de uma sala de aula. Há esse testemunho. Há a Idade Média - o Renascimento da Cultura italiana; há Nietzsche, as lembranças de sua adolescência, as incontáveis vezes em que fora lido e relido, assim como revisitado fora o passado dessa mesma adolescência. Sim, há o passado repousado sobre todas as coisas: os braços das carteiras, o giz, o professor, os olhos desesperados, o chão, o teto, o horto. Sobre a amiga de anos, o ventilador que não gira, o prédio bucolicamente perto da praia, ela mesma. Sim, há ela mesma e o passado. Há o passado dela mesma. Há um caderno vazio sobre o seu colo, recheado de pequenas notas, breves comentários, aforismos, citações, pedaços de vida. E há, também, um outro caderno em que uma estória era contada e interrompida pelo meio, exatamente entre o que poderia ter sido e o que não foi. Exatamente no lugar do que nunca será. Então, a menina afogueada, de blusa listrada de azul continua sua espera e subitamente volta-se para si mesma. Para a constatação da individualidade arbitrária do fato histórico - tema da aula - de épocas que não se esgotam em si mesmas, como ela também não se esgotara. Como a história que não estava sendo contada não esgotaria também em si mesma; como o que poderia ter sido, o que era, fora ou viria a ser (ou não ser) também não se esgotaria. E o futuro, que era essa abstração na confluência do que havia sido, poderia ter sido, e talvez viesse a ser - inclusive sua proposição negativa, ou seja, não ser - era aquela cena, apreendida no movimento de seu olhar deslocado de si para o além, para o distante, o inapreensível que vislumbrara, erroneamente, porém imediatamente percebido, entender o que houvera, com o olhar do presente, buscando explicar esse passado com sua aura de presente (no caso, a constatação de algo interrompido), e não olhar, dentro dela mesma, o que desse passado ainda resistia, residia, aderira à ela. Até fixar o olhar na folha branca, ouvir um sussurro, o barulho do silêncio de seu próprio coração enquanto se debruçava sobre algo inapreensível, portanto instigante, incômodo, desconfortável, porém belo - pois belas são as permanentes impermanências da vida - que era o tempo, o passado o presente irredimível de tudo o que poderia ter sido, mas que tangenciado pelos limites intrínsecos de nossa natureza, permaneciam entre uma e outra realidade. Assim: em suspenso, pairando como aquela cena em que todas as possibilidades podiam ser vislumbradas. E, por isso mesmo, intocadas, aflitas, inapreensíveis. É nesse minuto, em que percebe que o deleite advém do incômodo, do desespero, que a moça frágil, afogueada, de blusa azul - que ansiava por algo - se coloca diante de si, com a humildade de quem procura resgatar do que houvera o que ainda há. É nesse minuto, nesse minuto único de compreensão dos fenômenos humanos, em que ela respira fundo, e o ar lhe falta. [...] As possibilidades de escolha, do futuro se fazer são o que tornam o tempo possível e a História fundamental. E as possibilidades podem muito bem ser a essência daquilo que parece nos mover a todos: a falta, o incômodo, a incerteza. E a gênese disso, tão complexa, resistiu à simplicidade de uma frase. Um caderno com muitas folhas em branco, e uma estória, que não estava sendo contada. [...] ... Agora: 00h27min de 28/09/2011 cumprirei a função de membro do PWRB, já que a do PWWB eu terminara. (quebra de página, início do registro do dia posterior)"
Trecho do Caderno de capa vermelha - toda a pontuação esdrúxula foi respeitada. Só não consegui reproduzir as rasuras, as manchas de tinta e a letra levemente tremida, porém retilínea - pouco anterior ao registro do 28/09/2011... Que, aliás, pensando bem, está lindo.
p.s: PWRB é a sigla para people who read in bed
PWWB é people who write in bed
Quinta-feira, Outubro 20, 2011
Silent Lucidity
Essa música agora faz sentido para mim.
Silent Lucidity
Queensryche
Hush now, don't you cry
Wipe away the teardrop from your eye
You're lying safe in bed
It was all a bad dream
Spinning in your head
Your mind tricked you to feel the pain
Of someone close to you leaving the game of life
So here it is, another chance
Wide awake you face the day
Your dream is over... or has it just begun?
There's a place I like to hide
A doorway that I run through in the night
Relax child, you were there
But only didn't realize it and you were scared
It's a place where you will learn
To face your fears, retrace the years
And ride the whims of your mind
Commanding in another world
Suddenly you hear and see
This magic new dimension
I will be watching over you
I am gonna help you see it through
I will protect you in the night
I am smiling next to you, in Silent Lucidity
[Visualize your dream]
[Record it in the present tense]
[Put it into a permanent form]
[If you persist in your efforts]
[You can achieve dream control]
[Dream control]
[How's that then, better?]
[Hug me]
If you open your mind for me
You won't rely on open eyes to see
The walls you built within
Come tumbling down, and a new world will begin
Living twice at once you learn
You're safe from the pain in the dream domain
A soul set free to fly
A round trip journey in your head
Master of illusion, can you realize
Your dream's alive, you can be the guide but...
I will be watching over you
I am gonna help to see it through
I will protect you in the night
I am smiling next to you....
Silent Lucidity
Queensryche
Hush now, don't you cry
Wipe away the teardrop from your eye
You're lying safe in bed
It was all a bad dream
Spinning in your head
Your mind tricked you to feel the pain
Of someone close to you leaving the game of life
So here it is, another chance
Wide awake you face the day
Your dream is over... or has it just begun?
There's a place I like to hide
A doorway that I run through in the night
Relax child, you were there
But only didn't realize it and you were scared
It's a place where you will learn
To face your fears, retrace the years
And ride the whims of your mind
Commanding in another world
Suddenly you hear and see
This magic new dimension
I will be watching over you
I am gonna help you see it through
I will protect you in the night
I am smiling next to you, in Silent Lucidity
[Visualize your dream]
[Record it in the present tense]
[Put it into a permanent form]
[If you persist in your efforts]
[You can achieve dream control]
[Dream control]
[How's that then, better?]
[Hug me]
If you open your mind for me
You won't rely on open eyes to see
The walls you built within
Come tumbling down, and a new world will begin
Living twice at once you learn
You're safe from the pain in the dream domain
A soul set free to fly
A round trip journey in your head
Master of illusion, can you realize
Your dream's alive, you can be the guide but...
I will be watching over you
I am gonna help to see it through
I will protect you in the night
I am smiling next to you....
Quinta-feira, Outubro 13, 2011
SOS DOAÇÃO DE SANGUE
HOUVE UM ACIDENTE DE GRANDES PROPORÇÕES NO CENTRO DO RIO DE JANEIRO. PEDE-SE QUE SE DOE SANGUE. QUALQUER TIPO.
PROCURAR O HEMORIO: RUA FREI CANECA N° 8
NÃO É NECESSÁRIO ESTAR EM JEJUM.
VAMOS LÁ, PESSOAL!
PROCURAR O HEMORIO: RUA FREI CANECA N° 8
NÃO É NECESSÁRIO ESTAR EM JEJUM.
VAMOS LÁ, PESSOAL!
Quarta-feira, Outubro 05, 2011
Quinta-feira, Setembro 29, 2011
Feliz Ano Novo - Hosh hashaná
A Borda deseja um feliz ano novo para nossos amigos judeus, com o firme desejo de paz, sucesso, alegria e união.
O ano 5772 começa - celebrem.
"L 'shana Tova -- Ketivá ve- chatimá Tová”,
O ano 5772 começa - celebrem.
"L 'shana Tova -- Ketivá ve- chatimá Tová”,
Sexta-feira, Setembro 23, 2011
Yerusharalain shel zahav - uma música de minha infância - momento nostalgia
Para ouvi-la é só clicar no título da postagem. É muito bonita.
YERUSHALAIM SHEL ZAHAV (Jerusalém de Ouro)
por Naomi Shemer
Avir harim tsalul k'yayin
Vereiyach oranim
Nissah beru'ach ha'arbayim
Im kol pa'amonim.
U'vtardemat ilan va'even
Shvuyah bachalomah
Ha'ir asher badad yoshevet
Uvelibah - chomah.
Refrão
Yerushalayim shel zahav
Veshel nechoshet veshel or
Halo lechol shirayich Ani kinor.
x2
Chazarnu el borot hamayim
Lashuk velakikar
Shofar koreh behar habayit
ba'ir ha'atikah.
Uvme'arot asher baselah
Alfei shmashot zorchot
Nashuv nered el Yam Hemalach
B'derech Yericho
Refrão
Yerushalayim shel zahav
Veshel nechoshet veshel or
Halo lechol shirayich Ani kinor.
x2
Ach bevo'i hayom lashir lach
Velach likshor k'tarim
Katonti mitse'ir bana'ich
Ume achron ham'shorerim.
Ki shmech tsorev et hasfatayim
Keneshikat saraf
Im eshkachech Yerushalayim
Asher kulah zahav.
Refrão
Yerushalayim shel zahav
Veshel nechoshet veshel or
Halo lechol shirayich Ani kinor.
x2
(meu avô me cantava essa música quando eu era criança. Voz de barítono, de grande amplitude, registro de baixo até tenor. Um das melhores vozes que conheci na vida.)
YERUSHALAIM SHEL ZAHAV (Jerusalém de Ouro)
por Naomi Shemer
Avir harim tsalul k'yayin
Vereiyach oranim
Nissah beru'ach ha'arbayim
Im kol pa'amonim.
U'vtardemat ilan va'even
Shvuyah bachalomah
Ha'ir asher badad yoshevet
Uvelibah - chomah.
Refrão
Yerushalayim shel zahav
Veshel nechoshet veshel or
Halo lechol shirayich Ani kinor.
x2
Chazarnu el borot hamayim
Lashuk velakikar
Shofar koreh behar habayit
ba'ir ha'atikah.
Uvme'arot asher baselah
Alfei shmashot zorchot
Nashuv nered el Yam Hemalach
B'derech Yericho
Refrão
Yerushalayim shel zahav
Veshel nechoshet veshel or
Halo lechol shirayich Ani kinor.
x2
Ach bevo'i hayom lashir lach
Velach likshor k'tarim
Katonti mitse'ir bana'ich
Ume achron ham'shorerim.
Ki shmech tsorev et hasfatayim
Keneshikat saraf
Im eshkachech Yerushalayim
Asher kulah zahav.
Refrão
Yerushalayim shel zahav
Veshel nechoshet veshel or
Halo lechol shirayich Ani kinor.
x2
(meu avô me cantava essa música quando eu era criança. Voz de barítono, de grande amplitude, registro de baixo até tenor. Um das melhores vozes que conheci na vida.)
Segunda-feira, Setembro 19, 2011
A pequena vendedora de fósforos - Hans Christian Andersen
Era véspera de Natal. Fazia um frio intenso; já estava escurecendo e caía neve. Mas a despeito de todo o frio, e da neve, e da noite, que caía rapidamente, uma criança, uma menina descalça e de cabeça descoberta, vagava pelas ruas. Ela estava calçada quando saiu de casa, mas os chinelos eram muito grandes, pois eram os que a mãe usara, e escaparam-lhe dos pezinhos gelados quando atravessava correndo uma rua para fugir de dois carros que vinham em disparada. Não pôde achar um dos chinelos e o outro apanhou-o um rapazinho, que saiu correndo, gritando que aquilo ia servir de berço aos seus filhos quando os tivesse. A menina continuou a andar, agora com os pés nus e gelados. Levava no avental velhinho uma porção de pacotes de fósforos. Tinha na mão uma caixinha: não conseguira vender uma só em todo o dia, e ninguém lhe dera uma esmola — nem um só cruzeiro.
Assim, morta de fome e de frio, ia se arrastando penosamente, vencida pelo cansaço e desânimo — a imagem viva da miséria.
Os flocos de neve caíam, pesados, sobre os lindos cachos louros que lhe emolduravam graciosamente o rosto; mas a menina nem dava por isso. Via, pelas janelas das casas, as luzes que brilhavam lá dentro. Sentia-se na rua um cheiro bom de pato assado — era a véspera de Natal —; isso sim, ela não esquecia.
Achou um canto, formado pela saliência de uma casa, e acocorou-se ali, com os pés encolhidos, para abrigá-los ao calor do corpo; mas cada vez sentia mais frio. Não se animava a voltar para casa, porque não tinha vendido uma única caixinha de fósforos, e não ganhara um vintém. Era certo que levaria algumas lambadas. Além disso, em sua casa fazia tanto frio como na rua, pois só havia o abrigo do telhado, e por ele entrava uivando o vento, apesar dos trapos e das palhas com que lhe tinham tapado as enormes frestas.
Tinha as mãozinhas tão geladas… estavam duras de frio. Quem sabe se acendendo um daqueles fósforos pequeninos sentiria algum calor? Se se animasse a tirar um ao menos da caixinha, e riscá-lo na parede para acendê-lo… Ritch!. Como estalou, e faiscou, antes de pegar fogo!
Deu uma chama quente, bem clara, e parecia mesmo uma vela quando ela o abrigou com a mão. E era uma vela esquisita aquela! Pareceu-lhe logo que estava sentada diante de uma grande estufa, de pés e maçanetas de bronze polido. Ardia nela um fogo magnífico, que espalhava suave calor. E a meninazinha ia estendendo os pés enregelados, para aquecê-los, e… tss! Apagou-se o clarão! Sumiu-se a estufa, tão quentinha, e ali ficou ela, no seu canto gelado, com um fósforo apagado na mão. Só via a parede escura e fria.
Riscou outro. Onde batia a luz, a parede tornava-se transparente como um véu, e ela via tudo lá dentro da sala. Estava posta a mesa. Sobre a toalha alvíssima via-se, fumegando entre toda aquela porcelana tão fina, um belo pato assado, recheado de maçãs e ameixas. Mas o melhor de tudo foi que o pato saltou do prato, e, com a faca ainda cravada nas costas, foi indo pelo assoalho direto à menina, que estava com tanta fome, e…
Mas — o que foi aquilo? No mesmo instante acabou-se o fósforo, e ela tornou a ver somente a parede nua e fria na noite escura. Riscou outro fósforo, e àquela luz resplandecente viu-se sentada debaixo de uma linda árvore de Natal! Oh! Era muito maior e mais ricamente decorada do que aquela que vira, naquele mesmo Natal, ao espiar pela porta de vidro da casa do negociante rico. Entre os galhos, milhares de velinhas. Estampas coloridas, como as que via nas vitrinas das lojas, olhavam para ela. A criança estendeu os braços diante de tantos esplendores, e então, então… apagou-se o fósforo. Todas as luzinhas da árvore de Natal foram subindo, subindo, mais alto, cada vez mais alto, e de repente ela viu que eram estrelas, que cintilavam no céu. Mas uma caiu, lá de cima, deixando uma esteira de poeira luminosa no caminho.
— Morreu alguém — disse a criança.
Porque sua avó, a única pessoa que a amara no mundo, e que já estava morta, lhe dizia sempre que, quando uma estrela desce, é que uma alma subiu para o céu.
Agora ela acendeu outro fósforo; e desta vez foi a avó quem lhe apareceu, a sua boa avó, sorridente e luminosa, no esplendor da luz.
— Vovó! — gritou a pobre menina. Leva-me contigo… Já sei que, quando o fósforo se apagar, tu vais desaparecer, como sumiram a estufa quente, o pato assado e a linda árvore de Natal!
E a coitadinha pôs-se a riscar na parede todos os fósforos da caixa, para que a avó não se desvanecesse. E eles ardiam com tamanho brilho, que parecia dia, e nunca ela vira a vovó tão grandiosa, nem tão bela! E ela tomou a neta nos braços, e voaram ambas, em um halo de luz e de alegria, mais alto, e mais alto, e mais longe… longe da Terra, para um lugar, lá em cima, onde não há mais frio, nem fome, nem sede, nem dor, nem medo, porque elas estavam, agora, no céu com Deus.
A luz fria da madrugada achou a menina sentada no canto, entre as casas, com as faces coradas e um sorriso de felicidade. Morta. Morta de frio, na noite de Natal.
A luz do Natal iluminou o pequenino corpo, ainda sentado no canto, com a mãozinha cheia de fósforos queimados.
— Sem dúvida, ela quis aquecer-se — diziam.
Mas… ninguém soube que lindas visões, que visões maravilhosas lhe povoaram os últimos momentos, nem com que júbilo tinha entrado com a avó nas glórias do Natal no Paraíso.
Assim, morta de fome e de frio, ia se arrastando penosamente, vencida pelo cansaço e desânimo — a imagem viva da miséria.
Os flocos de neve caíam, pesados, sobre os lindos cachos louros que lhe emolduravam graciosamente o rosto; mas a menina nem dava por isso. Via, pelas janelas das casas, as luzes que brilhavam lá dentro. Sentia-se na rua um cheiro bom de pato assado — era a véspera de Natal —; isso sim, ela não esquecia.
Achou um canto, formado pela saliência de uma casa, e acocorou-se ali, com os pés encolhidos, para abrigá-los ao calor do corpo; mas cada vez sentia mais frio. Não se animava a voltar para casa, porque não tinha vendido uma única caixinha de fósforos, e não ganhara um vintém. Era certo que levaria algumas lambadas. Além disso, em sua casa fazia tanto frio como na rua, pois só havia o abrigo do telhado, e por ele entrava uivando o vento, apesar dos trapos e das palhas com que lhe tinham tapado as enormes frestas.
Tinha as mãozinhas tão geladas… estavam duras de frio. Quem sabe se acendendo um daqueles fósforos pequeninos sentiria algum calor? Se se animasse a tirar um ao menos da caixinha, e riscá-lo na parede para acendê-lo… Ritch!. Como estalou, e faiscou, antes de pegar fogo!
Deu uma chama quente, bem clara, e parecia mesmo uma vela quando ela o abrigou com a mão. E era uma vela esquisita aquela! Pareceu-lhe logo que estava sentada diante de uma grande estufa, de pés e maçanetas de bronze polido. Ardia nela um fogo magnífico, que espalhava suave calor. E a meninazinha ia estendendo os pés enregelados, para aquecê-los, e… tss! Apagou-se o clarão! Sumiu-se a estufa, tão quentinha, e ali ficou ela, no seu canto gelado, com um fósforo apagado na mão. Só via a parede escura e fria.
Riscou outro. Onde batia a luz, a parede tornava-se transparente como um véu, e ela via tudo lá dentro da sala. Estava posta a mesa. Sobre a toalha alvíssima via-se, fumegando entre toda aquela porcelana tão fina, um belo pato assado, recheado de maçãs e ameixas. Mas o melhor de tudo foi que o pato saltou do prato, e, com a faca ainda cravada nas costas, foi indo pelo assoalho direto à menina, que estava com tanta fome, e…
Mas — o que foi aquilo? No mesmo instante acabou-se o fósforo, e ela tornou a ver somente a parede nua e fria na noite escura. Riscou outro fósforo, e àquela luz resplandecente viu-se sentada debaixo de uma linda árvore de Natal! Oh! Era muito maior e mais ricamente decorada do que aquela que vira, naquele mesmo Natal, ao espiar pela porta de vidro da casa do negociante rico. Entre os galhos, milhares de velinhas. Estampas coloridas, como as que via nas vitrinas das lojas, olhavam para ela. A criança estendeu os braços diante de tantos esplendores, e então, então… apagou-se o fósforo. Todas as luzinhas da árvore de Natal foram subindo, subindo, mais alto, cada vez mais alto, e de repente ela viu que eram estrelas, que cintilavam no céu. Mas uma caiu, lá de cima, deixando uma esteira de poeira luminosa no caminho.
— Morreu alguém — disse a criança.
Porque sua avó, a única pessoa que a amara no mundo, e que já estava morta, lhe dizia sempre que, quando uma estrela desce, é que uma alma subiu para o céu.
Agora ela acendeu outro fósforo; e desta vez foi a avó quem lhe apareceu, a sua boa avó, sorridente e luminosa, no esplendor da luz.
— Vovó! — gritou a pobre menina. Leva-me contigo… Já sei que, quando o fósforo se apagar, tu vais desaparecer, como sumiram a estufa quente, o pato assado e a linda árvore de Natal!
E a coitadinha pôs-se a riscar na parede todos os fósforos da caixa, para que a avó não se desvanecesse. E eles ardiam com tamanho brilho, que parecia dia, e nunca ela vira a vovó tão grandiosa, nem tão bela! E ela tomou a neta nos braços, e voaram ambas, em um halo de luz e de alegria, mais alto, e mais alto, e mais longe… longe da Terra, para um lugar, lá em cima, onde não há mais frio, nem fome, nem sede, nem dor, nem medo, porque elas estavam, agora, no céu com Deus.
A luz fria da madrugada achou a menina sentada no canto, entre as casas, com as faces coradas e um sorriso de felicidade. Morta. Morta de frio, na noite de Natal.
A luz do Natal iluminou o pequenino corpo, ainda sentado no canto, com a mãozinha cheia de fósforos queimados.
— Sem dúvida, ela quis aquecer-se — diziam.
Mas… ninguém soube que lindas visões, que visões maravilhosas lhe povoaram os últimos momentos, nem com que júbilo tinha entrado com a avó nas glórias do Natal no Paraíso.
Domingo, Setembro 11, 2011
11 de setembro de 2011 - 11 de setembro de 2011 - Para nunca esquecer
O terrorismo é inaceitável sob qualquer forma.O terrorismo não tem motivação, razão ou qualquer lógica que o sustente. É covarde, brutal e reprovável.
Não existe ex-terrorista, como não existe terror como forma de protesto.
Existe o horror hediondo de brincar com o maior temor humano que é o da morte estúpida.
Há dez anos o mundo se colocou de joelhos, e está até hoje.
Não há mais tranqüilidade em nenhum lugar, sabendo-se que do céu, do mar, das árvores alguém poderá selar o destino com um ato de violência gratuita.
Há dez anos.
Dez anos depois.
Never forget.
Becouse we are alive, they not.
Quinta-feira, Agosto 25, 2011
DIA DO SOLDADO - Duque de Caxias, O Pacificador
Bom dia!
Hoje a Borda faz uma reverência ao Dia do Soldado, atualmente tão negligenciado por nós.
Instituído em homenagem a um Herói de Guerra, Luís Alves de Lima e Silva - o Duque de Caxias, conhecido pelo justo építeto de "O Pacificador".
Patrono do Exército Brasileiro, a mais respeitável instituição brasileira segundo seus próprios cidadãos, hoje que o homanageia e glorifica na data de seu nascimento - 25 de agosto - com o "Dia do Soldado".
Caxias tem tido suas contribuíções inegáveis à constituição do Estado Brasileiro cada vez mais esquecidas das mentes e corações dos estudantes e cidadãos de hoje. Ao que parece, no Brasil, não se valoriza a figura que em toda parte do mundo, toda, sem exceção, recebe as mais altas honrarias de um povo, e isso desde antes do Império Romano - que é a figura do Herói de Guerra.
Aquele que lutou pela pátria, pela terra que abençoa os seus pés, no Império Romano, por exemplo, era recebido com glórias ao regressar, vivo ou morto - era honroso morrer em batalhas.
Em qualquer lugar do planeta, o Herói de Guerra não só é digno de respeito, como sua memória é sempre revisitada e glorificada, não só como agradecimento, mas como afirmação de nacionalidade, de patriotismo, dos mais elevados sentimentos que fazem uma pessoa ter amor à sua terra, e por ela morrer, se necessário for.
"Luís Alves de Lima e Silva, Duque de Caxias pacificou o Maranhão, São Paulo, Minas Gerais e o Rio Grande do Sul, províncias assoladas, no século passado, por graves rebeliões internas.
Comandou o Exército em três campanhas externas - todas vitoriosas.
É sua a exultação abaixo:
"O Deus dos Exércitos está conosco. Eia! Marchemos ao combate, que a vitória é certa, porque o General e amigo que vos guia, ainda, até hoje, não foi vencido!".
Caxias organizou o Exército Brasileiro, fez-se político, governou províncias e o próprio Brasil, pois foi Presidente do Conselho de Ministros por três vezes.
Não me alongarei falando das extensas contribuíções de Caxias ao país, seria prolixo. Apenas registro que um país que esquece seus heróis, facilmente esquecerá a si mesmo.
Não sei quanto aos outros, mas sei quanto à mim mesma: eu admiro profundamente aquele que às custas de sua vida - caso aconteça uma guerra, por exemplo - lutará em meu nome, pela minha terra, protegendo a minha vida, combatendo em meu lugar.
E caso tombe, no exercício de tão nobre função, jamais será por mim esquecido. Acredito que não por seu país.
Viva o Dia do Soldado!
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