Segunda-feira, Dezembro 07, 2009

Coisas Pequenas

Madredeus

(Pedro Ayres Magalhães)

Coisas pequenas são
coisas pequenas
são tudo o que eu te quero dar
e estas palavras são
coisas pequenas
que dizem que eu te quero amar.

Amar, amar, amar
só vale a pena
se tu quiseres confirmar
que um grande amor não é
coisa pequena
que nada é maior que amar.

E a hora
que te espreita
é só tua.
Decerto, nao será
só a que resta;
a hora
que esperei a vida toda,
é esta.

E a hora
que te espreita
é derradeira.
Decerto já bateu
à tua porta.
A hora
que esperaste a vida inteira,
é agora.

Éssa música é belíssima. Porém três versos são particularmente incríveis, reparem:
que um grande amor não é
coisa pequena
que nada é maior que amar.

Pois é isso aí. Se alguém souber me dizer o que é maior que amar, eu tiro o chapéu...

Segunda-feira, Novembro 09, 2009

de uma pessoa incrível, que não sou eu

" A GENTE ATÉ PODE QUEBRAR DE VEZ EM QUANDO,
MAS É PRECISO JUNTAR OS CACOS NA MANHÃ SEGUINTE."

Por isso, mãos à obra!

Sexta-feira, Outubro 02, 2009

back to the ground 2

A Vida é repleta de pontos finais.

Quinta-feira, Setembro 24, 2009

back to the ground

Estava sentada na ante-sala de um consultório de terapias alternativas (sem acreditar nelas, mas esperando também pela cura, pelo "milagre", por Deus) ao lado de uma pessoa cega. Eu pergutei então como era a cegueira. De repente se é invadido pelo mar da escuridão, respondeu.

Ninguém antes me olhara tão dentro dos olhos.

Domingo, Julho 19, 2009

montanha-Russa: The Top

Estou no topo. Quando descer, apareço. Espero que entendam.
Saudades,
Vânia

Quinta-feira, Julho 02, 2009

16.04.2007

16.04.2007


É preciso ir até o fim. Enfiar a faca até sentir a carne sendo rasgada. O nervo exposto. A cicatriz. Da vida muito já se falou. Queria falar da morte. Celebrar a ruína. Os corpos. A nudez. Nada. Essa espuma. Essa escuridão abrupta defronte. A incerteza desse cais. Ou todas as horas do mundo, enquanto houver. A pele sobre a pele apenas diz:- ainda há tempo. E se esgarça. Isso é fato. Aos dentes engulo um a um ao sabor de suas cáries, seus esmaltes alvíssimos. Viciados de tua boca. Velhas porcelanas feia. Isso também é fato. Tanto faz. O sangue ainda corre na cabeça. E tudo está onde deveria estar. Somente a morte pode contemplar-nos.

Quarta-feira, Junho 10, 2009

Nota aos meus leitores



Queridos,


Sei que ando em falta com vocês, na verdade, ando em falta com toda a minha atividade literária por conta de uma maravilhosa pós-graduação que terminei no dia 15. Porém, como ainda persistem aqueles trâmites de cópias protocolares, artigos sobre o trabalho a fazer, artigos para escrever e mandar sobre a mesma área em revistas, simpósios, congressos = vida acadêmica, fiquei um pouco afastada daqui. Mas prometo voltar em breve. Hoje não, estou exausta e minha mente não quer ficar em ponto algum, essa semana, com certeza. Sei notícias de todos, quero notícias de todos e digo que espero vocês na nossa próxima discussão (literária!).

beijos


Vânia


Só para dar um gostinho...


Poema de 23/02/05


As horas fundametais já me visitaram

o que tenho de meu (resíduo)

é o que não sou.

Sábado, Maio 09, 2009

Para nunca esquecermos

"Um homem pode conquistar em batalhas mil vezes mil homens, mas o maior vencedor em batalhas seria aquele que conquistasse a si mesmo"

Buda

DIA DE VESAK

Este é o Sagrado Sutra do Coração, Cânone da Sabedoria Budista. Está em sâncrito e a tradução é muito grande. Então fiz um texto meu para louvar essa data, embora eu não seja digna nem do texto, nem da data, nem sequer de dirigir meu olhar à essa foto.

Foi na primeira lua cheia de Touros que Sidartha Gautama, o Buda, nasceu, atingiu a Iluminação e morreu.

Pelo dia de Hoje, que sejam derramadas sobre toda a humanidade as bençãos de Buda.

Que todo o amor e misericórdia de suas palavras proferidas oitocentos anos antes, mas tão parecidas!, de Cristo, possam ser compreendidas e derramadas sobre a terra como a brisa da manhã trazendo o novo, a esperança.

Que não fale alto nosso orgulho;

que não fale alto nosso egoísmo;

que não fale alto nosso medo;

que não fale alto nosso desamor;

que não falem alto nossas amarras;

que não fale alto nossa omissão;

que não fale alto nossa comodidade;

pois tudo é impermanente como a espuma do mar

pois nada permaece o mesmo em sua forma

pois nada é senão um grão de areia na ventania

pois nada retorna à sua forma

que fale alto em nossos corações a piedade;

que fale alto em nossos corações o amor pelo Próximo e por nós mesmos;

que fale alto a misericórdia infinita;

que fale alto a sabedoria;

que fale alto a voz de Deus, muito alto

para que se cale o apego, a que tudo se perde

para que se cale o ódio, que a tudo arrebata e consome

para que se cale a indisciplina, que nos prende a correntes

para que se cale a violência

e reinem soberanas

a paz,

a felicidade,

a misericórdia e o amor

por todos os seres

pelo incriado

pelo Universo

pelo som

pelo Guardião do Dharma e do Karma

Assim seja.

GATE GATE PARAGATE PARASANGATE BODH SHIVAHAH

Vânia

Que essa lua que nos banha hoje se espalhe em sua luz por mais um ano.

Assim seja.

Om Mani Padme Hum

Domingo, Abril 19, 2009

Uma Tradução para Requiem



Cena 1:

Entrei pela mesma porta tantos anos depois. Sentei-me à mesma mesa do Café do cinema, em que costumávamos sentar. Como sempre, pedi um café para mim, outro para você, mas você não estava lá. Disponho agora, com mãos trêmulas, as xícaras uma em frente a outra, sento-me. Olho longamente o reflexo do meu rosto no mármore da mesa, na fórmica do chão, na parede de vidro ao lado, enxergo tudo, pessoas, paisagens, luzes, sombras e sobras das mais distantes lembranças, menos a mim, menos você. Observo, com certo encantamento, esse reflexo que não reconheço e percebo claramente como se estivesse vivendo não mais a minha vida, mas a vida de outra pessoa, como se eu já nem existisse mais, dissolvendo, dissolvendo. Não temo. Não agora. A outra face da moeda que não vi.

Ao longe a cidade escurece palidamente a praça vista de cima, panoramicamente, lembra-me Paris depois da guerra. Emudeço meu coração e calo a vontade visceral de chorar.
Pessoas entram para mais um filme a começar, burburinho, cheiro de pipoca e manteiga, pessoas rindo e conversando às vezes alto, às vezes apenas em ruído. Poderia ser um coração batendo, sístole, diástole, mas não era. Em mim reinava a desolação, poderia ser, para alguns, algum consolo ou júbilo, não para mim. Nunca para meu orgulho besta de querer abocanhar o passado a qualquer custo.
De repente, como um tiro, percebo o silêncio que está em mim, só em mim. A cadeira vazia. O café não tomado. E todo o calar das minhas lembranças naquele líquido quente e aveludado, amargo, que tomo, olhando seu rosto lá, tantos anos antes, sabendo, palmo a palmo, que você não mais está.

Cena 2:

Caminho pela galeria, até o fundo. Entro no restaurante em que, tantos anos passados, você cismou querer jantar, embora eu estivesse sem nenhum apetite. Sentei-me à mesma mesa como quem repete e aceita um ritual, mais pela continuidade do que pela recusa da perda de um hábito. Peço ao garçon o mesmo prato que você escolhera na tentativa ingênua de me obrigar a me alimentar e, na sua visão, alimentar-me era o mesmo que me obrigar a viver. Essa era a forma tua de me tirar do abismo, sem dizer palavra, agindo. Pedi que troxesse dois pratos. Como discretamente você o fez. Ofereço um a você, disponho agora cenouras, tomates, beterrabas, palmitos e ervilhas. O mesmo que você colocava no meu prato e eu retirava e colocava na bandeija em um jogo de recusa árduo. Até me encurvar timidamente à sua sentença: -coma ervilhas! Ou você prefere que eu te leve à boca? Como eu não quisesse a estupidez do ato, acatei. E caímos, ambas, às gargalhadas. Vi em seu rosto a satisfação por ter conseguido me arrancar um sorriso e garantir que eu saísse da inércia. E, por você, me obriguei a viver mais um dia.
Faço a refeição sem palavras, sem motivos, sem risadas, olhando fundo dentro dos teus olhos que estão cada vez mais dentro de mim. Isso é o que a gente chama saudade. Vez por outra observo meu reflexo distorcido no metal dos talheres, apego-me àquela imagem que sou eu desfigurada, incompreensível. Ao redor há todos os barulhos, todos os significados. Em mim, na mesa, no prato, na cadeira vazia, repousa o mais cruel dos silêncios.
Cena três

Espero você no Museu da República, sábado de manhã, mesmo banco, sob a mesma árvore. Você não chega, não entra pela parte principal e procura alguém com o olhar. O vento é frio e diz que você não vem, nenhum abraço caloroso - o vento é triste e distante, nada sabe de lembranças. Caminho pelos jardins até sair pelo outro portão. Sigo o mesmo itinerário até o Museu de Artes Modernas, o lugar que tanto gostávamos de ir. Subo ao segundo andar, como fizemos, pelo lado de fora, escuto ao longe a tua voz falando da vida. Vejo ao longe o mar, não tão longe. Subo no parapeito e brinco de asa-delta, você me fala, sem aviso prévio, da morte do seu irmão. -Morreu no mar. No dia do Natal. Acho que eu havia comentado que não gostava de natais. Olhei bem para seu rosto, vi uma pessoa incrível aceitando a própria desgraça. Descemos. Reconstituo à risca a exposição do Joan Brossa que tanto encantou você. Sento embaixo da mesma pilastra enviesada, horas, exatamente como fizemos e nem percebemos. Rio, sozinha, de uma estória hilária sobre um certo livro do Rolland Barthes. Atravesso as pistas em busca do restaurante vegetariano em que íamos sempre, sempre. Subo as escadas do sobradinho, faço meu ritual de lavar as mãos antes de mais nada. Procuro a mesa em que sempre almoçávamos. Você ficava de costas para a janela e eu me embalava no balé das árvores, e sempre que nos sentávamos começava a tocar a mesma música do supertramp. Chorei ao ver as folhas e mais ainda foi minha dor e espanto ao ouvir o velho supertramp emergindo como um fantasma.

A cadeira vazia, o brinde solitário, o reflexo do meu rosto no espelho. Depois segui, fui ao cinema e ao supermercado. Exatamente naquele supermercado em que nós, surpresas, encontrasmos dentro uma pizzaria. O filme, não lembro, as compras, o de sempre: beringelas, cogumelos comestíveis e tomate cereja. Sem você.

Por longos momentos caminhei pelos corredores de vinho querendo esbarrar em você, por longos momentos fiquei parada olhando o reflexo ridículo do meu rosto no chão polido do estabelecimento, no brilho intenso das garrafas de savignon cabermet, merlòt, rosès. E fiquei pasma, pois, aquela noite, você não passaria lá em casa para conversar com minha mãe e eu não te levaria até um táxi e pediria ao motorista que a conduzisse para casa em segurança.
Cena 4
Estou andando de volta para a casa, mas não sei mais o caminho. Eu olho as ruas, os carros, os edifícios. Desespero-me, pois não sei onde é a casa. De repente há um ruído cada vez mais alto saindo das entranhas da terra. Tudo o que conheço está destruído, ou prestes a ruir. Não me reconheço mais nos espelhos e cacos de vidro. Não sou mais ninguém. Não tenho laços, traços, olhos em órbitas cranianas. Piso em cadáveres, ouço gritos de crianças procurando seus pais mortos. Nada posso fazer, carrego cadáveres apenas. De um lado a outro. Sirenes cortam o céu vermelho como o sangue. Não percebo minha túnica branca forjada pelo meu próprio sangue, eu mesma ferida de morte, no peito, chafurdando escombros à procura de vida. Silêncio agora. Feridos por todos os lados estendem as mãos. Carrego quem posso, entre vivos e mortos. Dou-lhes um nome, dignidade, família. Tudo o que já não tenho. Sento-me, exausta, cintilante em meu manto branco-púrpura, e sinto uma certa desolação por não saber o exato instante da minha morte. Fito minhas mãos eternamente reféns daquela desgraça, como se todas as chagas jamais pudessem sair, e não saírão, e sei, apenas sei o peso do mundo.
Cena 5:
Estou em casa. Sou uma pessoa irremediavelmente. Que caminha, fala, respira. E tem objetos, rituais. Objeto mão tocando o nome caneta, riscando o nome caderno, nome caderno que está em cima do nome escrivaninha, nome escrivaninha que está diante do nome janela, por onde olha e vê três nomes prédios bem mais tristes do que ela, que sou eu - o nome. Deito-me no nome cama, toco o nome lençol, olho para o nome lustre. Lembro do nome de um homem que amei. Toco ao longe o nome corpo desse nome homem. Toco nesse nome amor como quem procura um vício. E encontra a escuridão. Não posso testemunhar a mim mesma. Não posso testemunhar a mim que sou eu mesma a testemunha, portanto ninguém pode testemuhar a testemunha. E sendo assim, niguém pode testemunhar ninguém. Chego ao ponto mais obscuro de mim - a alma. Onde todos os nomes são impossíveis.
cena 6:

Pego o telefone, sei que do outro lado posso ouvir a tua voz, mas escuto o som do Requiem. Tapo os ouvidos, peço a mim mesma que não ouça, não ouça. Outro horizonte devastado pelas minhas retinas rodopia diante de mim como o sol gira sobre a terra. Mais um carro em alta velocidade cruza a rua. Contudo ele toca, é bonito, é lindo Mozart. Mas... Recuso-me a dar-te paz. Ouça-me: -não vá. Nunca me deixe.
"-A amizade é a única forma de amor que se basta."
Cena 7:
Talvez o tempo passe agora mais devagar. Eu não sei ainda se há alguma razão, mas também já não me fere se não houver, essa realidade comum aos seres. Envelheço. Nada pode modificar essa certeza. Persigo um passado perdido, como todos, é isso o que quero. Na verdade, acho, não gostaria que o tempo voltasse. Queria mesmo era estar lá no tempo certo. Ter estado lá e conseguido. Falhei. Agora persigo essa memória como quem agarra um pedaço de vida em um oceano. A velha luz do farol. O lado certo da calçada. Só que é um pouco tarde. Será sempre, e pateticamente, tarde. É preciso ser dono da própria vida, afinal. Isso não mente. Para alguns, talvez, aqui houvesse algum consolo. Não para mim. Não há como dizer: - olhe lá. Vê aquele veleiro lá longe. Nade em sua direção. Nada será pensado. Afundo-me pelas vísceras. Não tenho escolha, ainda. Não é preciso dizer-me: - Ainda há vida. Para alguns, e para outros, haveria nisso uma delicadeza. Mas não para mim. Esse mar. Essa sentença cuspida anos antes. –Vamos, vá em sua direção! Não há escapatória ou deus ex machina. Não há como voltar.
 
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