
Cena 1:
Entrei pela mesma porta tantos anos depois. Sentei-me à mesma mesa do Café do cinema, em que costumávamos sentar. Como sempre, pedi um café para mim, outro para você, mas você não estava lá. Disponho agora, com mãos trêmulas, as xícaras uma em frente a outra, sento-me. Olho longamente o reflexo do meu rosto no mármore da mesa, na fórmica do chão, na parede de vidro ao lado, enxergo tudo, pessoas, paisagens, luzes, sombras e sobras das mais distantes lembranças, menos a mim, menos você. Observo, com certo encantamento, esse reflexo que não reconheço e percebo claramente como se estivesse vivendo não mais a minha vida, mas a vida de outra pessoa, como se eu já nem existisse mais, dissolvendo, dissolvendo. Não temo. Não agora. A outra face da moeda que não vi.
Ao longe a cidade escurece palidamente a praça vista de cima, panoramicamente, lembra-me Paris depois da guerra. Emudeço meu coração e calo a vontade visceral de chorar.
Pessoas entram para mais um filme a começar, burburinho, cheiro de pipoca e manteiga, pessoas rindo e conversando às vezes alto, às vezes apenas em ruído. Poderia ser um coração batendo, sístole, diástole, mas não era. Em mim reinava a desolação, poderia ser, para alguns, algum consolo ou júbilo, não para mim. Nunca para meu orgulho besta de querer abocanhar o passado a qualquer custo.
De repente, como um tiro, percebo o silêncio que está em mim, só em mim. A cadeira vazia. O café não tomado. E todo o calar das minhas lembranças naquele líquido quente e aveludado, amargo, que tomo, olhando seu rosto lá, tantos anos antes, sabendo, palmo a palmo, que você não mais está.
Cena 2:
Caminho pela galeria, até o fundo. Entro no restaurante em que, tantos anos passados, você cismou querer jantar, embora eu estivesse sem nenhum apetite. Sentei-me à mesma mesa como quem repete e aceita um ritual, mais pela continuidade do que pela recusa da perda de um hábito. Peço ao garçon o mesmo prato que você escolhera na tentativa ingênua de me obrigar a me alimentar e, na sua visão, alimentar-me era o mesmo que me obrigar a viver. Essa era a forma tua de me tirar do abismo, sem dizer palavra, agindo. Pedi que troxesse dois pratos. Como discretamente você o fez. Ofereço um a você, disponho agora cenouras, tomates, beterrabas, palmitos e ervilhas. O mesmo que você colocava no meu prato e eu retirava e colocava na bandeija em um jogo de recusa árduo. Até me encurvar timidamente à sua sentença: -coma ervilhas! Ou você prefere que eu te leve à boca? Como eu não quisesse a estupidez do ato, acatei. E caímos, ambas, às gargalhadas. Vi em seu rosto a satisfação por ter conseguido me arrancar um sorriso e garantir que eu saísse da inércia. E, por você, me obriguei a viver mais um dia.
Faço a refeição sem palavras, sem motivos, sem risadas, olhando fundo dentro dos teus olhos que estão cada vez mais dentro de mim. Isso é o que a gente chama saudade. Vez por outra observo meu reflexo distorcido no metal dos talheres, apego-me àquela imagem que sou eu desfigurada, incompreensível. Ao redor há todos os barulhos, todos os significados. Em mim, na mesa, no prato, na cadeira vazia, repousa o mais cruel dos silêncios.
Cena três
Espero você no Museu da República, sábado de manhã, mesmo banco, sob a mesma árvore. Você não chega, não entra pela parte principal e procura alguém com o olhar. O vento é frio e diz que você não vem, nenhum abraço caloroso - o vento é triste e distante, nada sabe de lembranças. Caminho pelos jardins até sair pelo outro portão. Sigo o mesmo itinerário até o Museu de Artes Modernas, o lugar que tanto gostávamos de ir. Subo ao segundo andar, como fizemos, pelo lado de fora, escuto ao longe a tua voz falando da vida. Vejo ao longe o mar, não tão longe. Subo no parapeito e brinco de asa-delta, você me fala, sem aviso prévio, da morte do seu irmão. -Morreu no mar. No dia do Natal. Acho que eu havia comentado que não gostava de natais. Olhei bem para seu rosto, vi uma pessoa incrível aceitando a própria desgraça. Descemos. Reconstituo à risca a exposição do Joan Brossa que tanto encantou você. Sento embaixo da mesma pilastra enviesada, horas, exatamente como fizemos e nem percebemos. Rio, sozinha, de uma estória hilária sobre um certo livro do Rolland Barthes. Atravesso as pistas em busca do restaurante vegetariano em que íamos sempre, sempre. Subo as escadas do sobradinho, faço meu ritual de lavar as mãos antes de mais nada. Procuro a mesa em que sempre almoçávamos. Você ficava de costas para a janela e eu me embalava no balé das árvores, e sempre que nos sentávamos começava a tocar a mesma música do supertramp. Chorei ao ver as folhas e mais ainda foi minha dor e espanto ao ouvir o velho supertramp emergindo como um fantasma.
A cadeira vazia, o brinde solitário, o reflexo do meu rosto no espelho. Depois segui, fui ao cinema e ao supermercado. Exatamente naquele supermercado em que nós, surpresas, encontrasmos dentro uma pizzaria. O filme, não lembro, as compras, o de sempre: beringelas, cogumelos comestíveis e tomate cereja. Sem você.
Por longos momentos caminhei pelos corredores de vinho querendo esbarrar em você, por longos momentos fiquei parada olhando o reflexo ridículo do meu rosto no chão polido do estabelecimento, no brilho intenso das garrafas de savignon cabermet, merlòt, rosès. E fiquei pasma, pois, aquela noite, você não passaria lá em casa para conversar com minha mãe e eu não te levaria até um táxi e pediria ao motorista que a conduzisse para casa em segurança.
Cena 4
Estou andando de volta para a casa, mas não sei mais o caminho. Eu olho as ruas, os carros, os edifícios. Desespero-me, pois não sei onde é a casa. De repente há um ruído cada vez mais alto saindo das entranhas da terra. Tudo o que conheço está destruído, ou prestes a ruir. Não me reconheço mais nos espelhos e cacos de vidro. Não sou mais ninguém. Não tenho laços, traços, olhos em órbitas cranianas. Piso em cadáveres, ouço gritos de crianças procurando seus pais mortos. Nada posso fazer, carrego cadáveres apenas. De um lado a outro. Sirenes cortam o céu vermelho como o sangue. Não percebo minha túnica branca forjada pelo meu próprio sangue, eu mesma ferida de morte, no peito, chafurdando escombros à procura de vida. Silêncio agora. Feridos por todos os lados estendem as mãos. Carrego quem posso, entre vivos e mortos. Dou-lhes um nome, dignidade, família. Tudo o que já não tenho. Sento-me, exausta, cintilante em meu manto branco-púrpura, e sinto uma certa desolação por não saber o exato instante da minha morte. Fito minhas mãos eternamente reféns daquela desgraça, como se todas as chagas jamais pudessem sair, e não saírão, e sei, apenas sei o peso do mundo.
Cena 5:
Estou em casa. Sou uma pessoa irremediavelmente. Que caminha, fala, respira. E tem objetos, rituais. Objeto mão tocando o nome caneta, riscando o nome caderno, nome caderno que está em cima do nome escrivaninha, nome escrivaninha que está diante do nome janela, por onde olha e vê três nomes prédios bem mais tristes do que ela, que sou eu - o nome. Deito-me no nome cama, toco o nome lençol, olho para o nome lustre. Lembro do nome de um homem que amei. Toco ao longe o nome corpo desse nome homem. Toco nesse nome amor como quem procura um vício. E encontra a escuridão. Não posso testemunhar a mim mesma. Não posso testemunhar a mim que sou eu mesma a testemunha, portanto ninguém pode testemuhar a testemunha. E sendo assim, niguém pode testemunhar ninguém. Chego ao ponto mais obscuro de mim - a alma. Onde todos os nomes são impossíveis.
cena 6:
Pego o telefone, sei que do outro lado posso ouvir a tua voz, mas escuto o som do Requiem. Tapo os ouvidos, peço a mim mesma que não ouça, não ouça. Outro horizonte devastado pelas minhas retinas rodopia diante de mim como o sol gira sobre a terra. Mais um carro em alta velocidade cruza a rua. Contudo ele toca, é bonito, é lindo Mozart. Mas... Recuso-me a dar-te paz. Ouça-me: -não vá. Nunca me deixe.
"-A amizade é a única forma de amor que se basta."
Cena 7:
Talvez o tempo passe agora mais devagar. Eu não sei ainda se há alguma razão, mas também já não me fere se não houver, essa realidade comum aos seres. Envelheço. Nada pode modificar essa certeza. Persigo um passado perdido, como todos, é isso o que quero. Na verdade, acho, não gostaria que o tempo voltasse. Queria mesmo era estar lá no tempo certo. Ter estado lá e conseguido. Falhei. Agora persigo essa memória como quem agarra um pedaço de vida em um oceano. A velha luz do farol. O lado certo da calçada. Só que é um pouco tarde. Será sempre, e pateticamente, tarde. É preciso ser dono da própria vida, afinal. Isso não mente. Para alguns, talvez, aqui houvesse algum consolo. Não para mim. Não há como dizer: - olhe lá. Vê aquele veleiro lá longe. Nade em sua direção. Nada será pensado. Afundo-me pelas vísceras. Não tenho escolha, ainda. Não é preciso dizer-me: - Ainda há vida. Para alguns, e para outros, haveria nisso uma delicadeza. Mas não para mim. Esse mar. Essa sentença cuspida anos antes. –Vamos, vá em sua direção! Não há escapatória ou deus ex machina. Não há como voltar.