O sol já não estava no horizonte quando iniciei meu caminho de volta para casa após ter sido declarada oficialmente deprimida - que ridículo! Era um trajeto que eu conhecia bem, agradável pelas paisagens, e pelo tempo que me deixava pensar. O fluxo dos carros em off ao longe, indo, indo sem parar, como o sangue nas veias, e eu seguindo o curso da rua. Olhava o céu, o mar, o topo dos prédios, árvores, nada prestava atenção às pessoas. A multidão sempre me afligiu, e nem preciso dizer que tudo o que eu queria àquela noite era não ficar aflita. Meus dias eram repletos dela, por alguns momentos eu queria ficar só, andar, ficar só, andar, andar, andar... e sentir o vento, ter alguma paz. Tudo bem, meus pensamentos estavam lá espreitando a oportunidade de soltar seus demônios, no entanto, eu estava determinada a não permitir que dessa vez eles partilhassem de minhas derrotas. Caminhava apenas por caminhar, e isso era bom, não fosse a falta de fôlego. E essa falta de fôlego só aumentou, e aumentou até me obrigar a parar.
Imaginem a cena grotesca: uma moça, ainda na casa dos vinte, tendo que desistir de seu passeio porque não conseguia respirar. É o fim do mundo.
Como se não me bastasse mais nada, comecei realmente a me sentir mal, bem mal. Pressão baixa, stress ou sei lá o quê misturado com qualquer coisa. Os demônios resolveram festejar, pensei. Eles costumavam fazer isso na minha cabeça, e não no resto do corpo... tudo é possível nos dias que correm.
Resumindo: parei em um cinema, para sentar em algum lugar e tomar um café. Era minha única alternativa: ou eu tentava melhorar, ou ía direto pro médico. Como acabara de sair de um, decidi melhorar na base da cafeína. Cafeína resolve tudo. - concluí.
O lugar estava cheio. Muito cheio, e o cheiro de pipoca só piorava minha situação, porém, ainda sim era melhor estar lá do que na rua. Achei uma mesa vazia depois de procurar muito, sentei-me. E só piorava.
Depois de um tempo com a cabeça baixa, os sons inarticulados voltaram a fazer sentido. E eu estava cada vez pior, as imagens rolavam na minha cabeça. O cheiro de pipoca era torturante. Senti a presença de alguém perto de mim. Foi quando ergui os olhos institivamente e dei de cara com um casal bem idoso. Bem idoso MESMO. Por delicadeza, e automaticamente até, levantei-me para ceder o lugar. Era uma gentileza custosa, significaria ficar em pé, procurar outra cadeira, e eu não conseguia imaginar como fazê-lo naquele estado. Sentindo-me mal como me sentia, nem o café eu conseguira pedir. No entanto, o respeito pelos mais velhos era maior do que meu sofrimento. Levantei e ponto: fosse o que deus quisesse então, afinal, ainda restava a possibilidade de pegar um táxi.
-Por favor... - fiz um gesto indicando a mesa. - Sentem-se, eu já estava indo embora... Não tem nenhuma mesa vazia... por favor...
- Não, minha filha, obrigada! - respondeu uma senhorinha de uns oitenta anos ou mais (depois soube, 87).
- Mas, Maria, não tem nenhuma mesa. - falou o marido, meio ranzinza. A menina cedeu o lugar, não seja tola, aceite.
- Não, Herculano. Meu bem... - foi sentando na única cadeira desocupada, visto que a segunda estava ocupada por mim.
- Você não vê... Vá já pegar uma garrafa de água. - respondeu a velhinha, indicando o balcão.
O marido devia estar acostumado a cumprir ordens, pensei, ele nem contestara nada. Fora com uma rapidez que desmentia seus inacreditáveis 88 anos de vida.
- O que houve minha filha? - perguntou olhando bem no fundo dos meus olhos, e não se fez de rogada, já encostou as diminutas mãos no meu rosto. - Mas como está gelada! - continuou, e extrapolando os limites da boa educação, e da intimidade que não tínhamos, segurou as minhas mãos, apertando-as aflita. - Você está gelada! O que houve? Meu bem, você está sentindo alguma coisa? Pálida desse jeito, Herculano! O que a gente faz?- olhou o marido que trouxera a água. E continuava segurando as minhas mãos, e o mais estranho, eu deixava - já estava assustada com o insólito da cena mesmo. - Você não tem cor, minha filha, lívida feito a parede. O que você está sentindo?
- Nada, senhora. Não se preocupe comigo. - falei, finalmente, em um arroubo estoico de boa educação que diz para não afligir os demais, sufocar sentimentos.
- Que nada, jovem... - disse me o velhinho, com ar curioso e preocupado. - Ao menos tome a àgua. Maria tem razão, você não tem cor... - colocou água no copo e colocou na minha frente. Eu aceitei, mas tremia tanto, tanto.
- Viu, minha filha? Você não está bem. O que você sente? Nós podemos te ajudar, não quer chamar alguém? - tagarelava sem parar a velhinha de doces olhos. - Herculano, vagou uma cadeira ali, viu? Pegue-a e venha sentar aqui. Essa moça precisa de nós.
O casal sentou-se então, e continuava a falar. Tudo o que eu não queria era ter que chamar alguém, muito menos alguém da minha casa. Também não queria assustá-los, eu mesma estava assustada.
- Estou um pouco sem ar. - respondi, com certa dificuldade, pausando bem as palavras para que notassem o mínimo possível. E não era só isso o que eu sentia.
- Nota-se. - respondeu Herculano, me fazendo sentir pior que uma barata.
- E o que mais? - perguntou a senhorinha. Ofegante, sim, você mal consegue falar. Mas não é isso o que te aflige...não é mesmo? - e continuava a apertar minhas mãos.
- Não é só isso mesmo. - derreei à insistência. Estou com muito mal estar ... enjoada, cansada e... bom não importa. Vou melhorar logo. Não se preocupem. Só não quero importunar ninguém. - mas minha agonia apenas crescia, parecia que havia um ninho de gatos dentro de mim. Eu já tinha afrouxado a roupa, o máximo que me permitia o decoro, mas nada parecia aliviar aquela dor, aquela contrição.
- estou com um aperto no peito, dor. Muita dor. E não consigo respirar. Eu estava caminhando e...
-querida, você está tendo uma crise de asma... - falou Maria, com tanta amabilidade que me comoveu. - Ou uma crise de pânico. As duas são muito parecidas.
- Herculano tinha asma quando criança. Eu também tive. É muito ruim mesmo. Se for asma, você tem que ir agora para um hospital, senão vai piorar até...sabe deus. - continuou com muita calma.
- Mas eu nunca tive. - Já fiz vários exames, nada de asma...
- Piora quando você levanta, piora com o cigarro? Piora com o tempo?
- Sim, mas hoje, por exemplo, está quente, eu estava ao ar livre, caminhando!
- Não quer dizer nada. E você não parece estar encatarrada, nem chiando...
pode até nem ser asma, certamente não é nada sério. Fique calma, bem calma. Vai passar. - continuava segurando as minhas mãos. - Como estão frias!
que ótimo pensei, estou morrendo.
-Agora, pode não ser nada disso. Seja lá o que for vai passar. E vai passar logo. Nós vamos ficar aqui com você, até você melhorar. Se em meia/uma hora não voltar a cor pr'os seus lábios, você querendo ou não vai conosco para um hospital.
Agora vem a cereja do bolo:
- Herculano dirige muito bem. Agora calma, respire o mais devagar que puder.
-Maria sabe que eu nuca tive uma multa. Nunca nesses anos todos! Ficam implicando, dizendo que não posso mais dirigir na minha idade. Bando de ignorantes. Meus netos são assim, acham que velho vira um cristalzinho... olha mas tá...
-Herculano sempre fora muito responsável. Acredita, minha filha, que quando meu mais velho nasceu ele ficou tão apavorado que esqueceu a carteira! Foi a única vez que ele esqueceu alguma coisa!
-Imagino. Não gosto, sabe, dessa coisa de terceira idade. Ficar dividindo as pessoas como a sessão do supermercado: laticínios, secos, hortifrutiganjeiros...- falei com medo de ofendê-los, mas era o que eu achava mesmo. E quase morrendo, não iria mentir.
- Viu, meu bem, já consegue falar um pouquinho. Ainda sente dor? Também não concordo. Velhos são chatos.
- É verdade, minha filha, não confie neles. - completou Herculano. E você está com uma carinha um pouquinho melhor.
- Ah, coitadinha daquela moça. Gostávamos tanto dela... - virou Maria, visivelmente tentando me distrair dos meus tormentos, para Herculano. - Tão jovem, tão bonita.
- Devia ter a sua idade, um pouco mais talvez- disse Herculano, e que voz!
- Pois é... uma pena. Mas também, com tudo o que fizeram com ela...
- desculpe, mas de quem vocês estão falando?
- Minha filha, você não sabe?
- De quê?
- A cantora... - Herculano
- A Amy Wine...- maria
-house - eu
- Eu era uma profunda admiradora de seu trabalho - falei, um pouco melhor. Embora ainda com muita dor, e muito mal estar.
- Nós também. E mais, nós a achávamos uma ótima garota.
- Eu também. - Nunca me convenci de que ela era um mau exemplo. Não, não era um mau exemplo. - eu
disse, e eu acho mesmo que Amy era um grande exemplo. Um exemplo positivo.- E não era mau mesmo. Ela era doente, mas iria sair se tivesse mais tempo. - completou Maria.
- Beba um pouco de água, meu bem. Ainda sente dor?
- Sim, mas está melhorando. Só é aflitivo... E essa falta de ar...- muito chato...
- Vai passar, vai passar. - Herculano afagava minha cabeça. Não quer mesmo avisar ninguém?
- Não.
- Você conhece o Back to Black? - perguntou Maria.
Comecei a me convencer da morte iminente.
- Eu tenho tudo o que ela lançou. E teria quantos lançasse... - repondi.
- Nós também. Adoramos esse disco. Qual a sua preferida?
- Música?
- Sim... a nossa é Some unholy... e Rehab! Pronto falei. - disse Herculano
- a minha...não sei gosto de todas, mas a preferida: Back to Black, e também You know... e My tears...
- Difícil, né? - são todas boas. Uma pena!
O insólito já estava no surreal, e eu não tinha mais certeza se de fato estava ocorrendo aquela cena, ou se já não estaria entrando no túnel do além...
- E então, está melhor? - Maria, ainda segurando minhas mãos. Passava-as pelo meu rosto.
- Sim, estou me sentindo menos agoniada. Ainda com dor, ainda sem ar, mas sem enjôo - E isso depois de muito tempo, mais de uma hora, duas quase que eu havia chegado ali.
- Que bom! Você está melhorando, muito bem... - disse Herculano. -Já tem um pouco mais de cor, mesmo, graças a deus. Isso não deve ser nada muito sério não, minha filha. Você deve ter algum tipo de asma, alergia, ou mesmo estar apenas ansiosa. Você é muito jovem ainda. - Tudo na sua idade tem tratamento, cura.
- de qualquer forma, você vai ao médico, não vai? - completou Maria
- na verdade, estava vindo de um. - Fui fazer uma consulta de rotina. Já senti isso outras vezes, estamos investigando para saber...
- Não deve ser nada sério. - fechou a cara Herculano. Você vai ficar bem. E logo. Não se assuste, nem fique impressionada, tá? Logo logo vão saber o que você tem.
- E não terá nada. - disse Maria, com um quê de censura para o marido. - Homens são dramáticos. Já criei três filhos, sei muito bem quando alguma coisa vai mal.
- Você vai ficar bem. E não tem nada sério, e se tiver algo, é asma. E asma tem tra-ta-men-to. - ouviu, filha. Ainda sente dor?
- Um pouco. Nem se compara ao que estava antes! Só ainda...
- Ofegante ... Eu sei. Você já está com aparência de gente viva! Nossa, que susto que nós levamos. - disse Herculano. - Nós a estávamos observando desde que chegou. - disse.
-Estava com uma cara tão péssima assim? - perguntei. -Tentei ficar o mais calma que pude. Achava que melhoraria com um café...
- Você parecia um fantasma. E quietinha... tão quietinha
- E angustiada, triste, muito triste. - completou Herculano. Na nossa idade a gente conhece as pessoas de longe...
Assim transcorreram três horas. Entre conversas e perguntas, e apertos de mão. Demorou, mas eu melhorei o suficiente para voltar para casa e procurar um médico no dia seguinte. Herculano e Maria, afagaram minha cabeça, minhas mãos e meu coração cedendo mais de três horas de suas vidas, e paciências. E, embora o relato pareça inverossímel, ele é ver-da-dei-ro.
Herculano dirige sim, muito bem, e ainda me trouxe em casa. Despediram-se de mim, cada um com um beijo e um abraço (que há muito não recebia de ninguém com tanto amor), dizendo: - Fique bem, acalme-se, você tem a vida pela frente. E vá ao médico amanhã, sem demora...não seja uma moça teimosa!
E foram embora, em seu carro cor de prata (novíssimo por sinal)...
e o mais insólito da coisa, e o mais bonito também é que...
Não sabem, nem lhes ocorreu perguntar...o meu nome.
Por isso, e pelo carinho, além da gratidão, torno público esse relato, na esperança que, modernos que são, tenham internet e saibam o quanto os amo.
P.S eu fui ao médico. Não foi crise de pânico, e a hipótese mais provável é um tipo menos conhecido de...Asma. E isso, na pior das hípóteses. Já que tudo indica que não irá se repetir. Eu espero, mas se tiver que ser, que eu possa estar com Herculano e Maria outra vez.

5 comentários:
Não sei quem são, mas já gosto deles!
bjs
C.
...Mas você está tão mal assim?
algo com que deva me preocupar?
bjs
C.
Querido C.
Dá para deixar de usar essa inicial, seu nome nem é tão comprido assim.
Estou ótima, dentro do que é possível. E não se preocupe, ainda falta muito tempo para você usar aquele terno Armani...
bjs
Vânia
Nesses momentos de angústia, é um alento encontrarmos anjos como Maria e Herculano. Sinal de que não estamos tão sós no mundo como às vezes parece.
O sol voltará a brilhar, querida amiga. E os próximos tempos te trarão muitos outros amigos.
Ana!
Só faço questão que me tragam paz. Se no pacote vierem amigos, ficarei muito feliz. Mas, se não puder, paz já está muito bom!!
bjos
Vânia
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