Oi queridos!
Toda quarta-feira de cinzas eu preciso ler esse poema para me centrar um pouco. Ele faz parte de meu caldo cultural assim como tudo o que li, vivi e aprendi ao longo do tempo. Talvez seja este o texto mais recorrente na minha cabeça nos últimos dez anos, juntamente com trechos inteiros de Waste Land (A terra Devastada) do mesmo autor. Às vezes quando abaixo a cabeça, ou fecho os olhos por alguma coisa - angústia, medo, cansaço - é isso o que vejo e sei ecoando dentro de mim como em meus ouvidos ecoa Bethoven, Mozart e Maria Callas. Admito, sem nenhum problema, ser Eliot uma das maiores influências em minha Literatura poética, tanto que tento imitar-lhe o brilho, merecê-lo.
Quantas vezes foi Eliot minha única companhia, ou Mozart, ou Bethoven ou Maria Callas - geralmente todos juntos, já que é ele o autor da "música poética" - nos últimos e devastadores anos. Talvez eu nem saiba o quanto Ash Wdnesday ou Four Quartets estiveram presentes na minha vida e no meu desepero..
Publicado em sua forma e íntegra atuais em abril de 1930, é o primeiro poema longo após a conversão do autor ao anglicanismo. Com uma tiragem original de 600 cópias, modesta para um escritor que já lograva algum sucesso, logo fora reeditado no Reino Unido com uma tiragem de 2000 exemplares e nos Estados Unidos em igual quantidade. Fora dedicado à sua esposa Vivienne Haigh-Wood Eliot, com quem iniciou uma separação em 1933.
Eliot trabalhava seus poemas, principalmente seus poemas longos, através de fragmentos. Portanto, partes de Ash Wednesday foram publicadas anteriormente em cadernos e suplementos literários.
Trata-se de um dos mais belos poemas de Eliot. Sua temática, e conseqüentemente seus planos interpretativos, tão difíceis e variados, como em toda a sua poesia, girando em torno uma retomada de fé e crença em Deus. Também, já que Eliot trabalhava o intertexto com maestria, fazendo de seus poemas verdadeiras elegias ocidentais, apesar das diversas influências orientais, hindus quase sempre - repletas de referências eruditas e planos interpretativos desdobrados em camadas.
Ash Wednesday é um poema contemplativo, que corre para Deus e para o amor. Possui claramente trechos da missa anglo-católica, como o Kirium, a Eucaristia, além de partes de orações à Nossa Senhora, também presentes na missa.
Também é um poema com forte influência de Dante. Principalmente a segunda parte, em que isso se torna mais nítido e quase obcessivo.
Como Eliot estudou exaustivamente Línguas Clássicas, tendo como aprofundamente o Sânscrito, conhecendo os Vedas e Upanishads, podemos perceber em muitos momentos a exegese vedanta, principalmente com relação aos conceitos de tempo, lugar e finitude expressos em seus escritos. Adaptando-os, e isso sem contradições, à propria tradição cristã.
Veja o fragmento:
Porque sei que o tempo é sempre o tempo
E que o espaço é sempre o espaço apenas
E que o real somente o é dentro de um tempo
E apenas para o espaço que o contém
Como se pode notar, trata-se de uma percepção bastante oriental, hinduísta, que está em conformidade com um poema notadamente cristão.
Outra temática importante, que não pode ser esquecida, é a referência histórica. Eliot não trabalhava com temáticas sociais, é fato, e isso de certa forma manteve sua integridade literária, mas trabalhava com contemporaneidade histórica. Serão encontradas referências sutis à guerra, ao período entre guerras, com sua miséria e crise de valores, e ao horror disso tudo, através de simbolismos bem mais nítidos em Waste Land do que em Ash.
Ensaísta, editor, crítico, poeta e dramaturgo, Eliot foi laureado com um prêmio Nobel mais do que merecido em 1948.
Um dos precursores da poesia moderna, inovador crítico literário e editor de qualidade, Eliot foi um presente para o mundo. Principalmente por enfatizar o árduo e difícil trabalho de um escritor poeta, valorizar as temáticas meramente literárias, artísticas, religiosas e humanas próprias do ser. A arte, a modernidade, a vida, Deus, e sobretudo, a palavra.
Após essa breve intervenção que não tem a pretensão de explicar a obra complexa do escritor, divido-o com vocês.
Tradução de Ivan Junqueira
QUARTA-FEIRA DE CINZAS
I
Porque não mais espero retornar
Porque não espero
Porque não espero retornar
A este invejando-lhe o dom e àquele o seu projeto
Não mais me empenho no .empenho de tais coisas
(Por que abriria a velha águia suas asas?)
Por que lamentaria eu, afinal,
O esvaído poder do reino trivial?
Porque não mais espero conhecer
A vacilante glória da hora positiva
Porque não penso mais
Porque sei que nada saberei
Do único poder fugaz e verdadeiro
Porque não posso beber
Lá, onde as árvores florescem e as fontes rumorejam,
Pois lá nada retorna à sua forma
Porque sei que o tempo é sempre o tempo
E que o espaço é sempre o espaço apenas
E que o real somente o é dentro de um tempo
E apenas para o espaço que o contém
Alegro-me de serem as coisas o que são
E renuncio à face abençoada
E renuncio à voz
Porque esperar não posso mais
E assim me alegro, por ter de alguma coisa edificar
De que me possa depois rejubilar
E rogo a Deus que de nós se compadeça
E rogo a Deus porque esquecer desejo
Estas coisas que comigo por demais discuto
Por demais explico
Porque não mais espero retornar
Que estas palavras afinal respondam
Por tudo o que foi feito e que refeito não será
E que a sentença por demais não pese sobre nós
Porque estas asas de voar já se esqueceram
E no ar apenas são andrajos que se arqueiam
No ar agora cabalmente exíguo e seco
Mais exíguo e mais seco que o desejo
Ensinai-nos o desvelo e o menosprezo
Ensinai-nos a estar postos em sossego.
Rogai por nós pecadores agora e na hora de nossa morte
Rogai por nós agora e na hora de nossa morte.
II
Senhora, três leopardos brancos sob um zimbro
Ao frescor do dia repousavam, saciados
De meus braços meu coração meu fígado e do que havia
Na esfera oca do meu crânio. E disse Deus:
Viverão tais ossos? Tais ossos
Viverão? E o que pulsara outrora
Nos ossos (secos agora) disse num cicio:
~raças à bondade desta Dama
E à sua beleza, e porque ela
A meditar venera a Virgem,
É que em fulgor resplandecemos. E eu que estou aqui
dissimulado
Meus feitos ofereço ao esquecimento, e consagro meu amor
Aos herdeiros do deserto e aos frutos ressequidos.
Isto é o que preserva
Minhas vísceras a fonte de meus olhos e as partes indigestas
Que os leopardos rejeitaram. A Dama retirou-se
De branco vestida, orando, de branco vestida.
Que a brancura dos ossos resgate o esquecimento.
A vida os excluiu. Como esquecido fui
E preferi que o fosse, também quero esquecer
Assim contrito, absorto em devoção. E disse Deus:
Profetiza ao vento e ao vento apenas, pois somente
O vento escutará. E os ossos cantaram em uníssono
Com o estribilho dos grilos, sussurrando:
Senhora dos silêncios
Serena e aflita
Lacerada e indivisa
Rosa da memória
Rosa do oblívio
Exânime e instigante
Atormentada tranqüila
A única Rosa em que
Consiste agora o jardim
Onde todo amor termina
Extinto o tormento
Do amor insatisfeito
Da aflição maior ainda
Do amor já satisfeito
Fim da infinita
jornada sem termo
Conclusão de tudo
O que não finda
Fala sem palavra
E palavra sem fala
Louvemos a Mãe
Pelo Jardim
Onde todo amor termina.
Cantavam os ossos sob um zimbro, dispersos e alvadios,
Alegramo-nos de estar aqui dispersos,
Pois uns aos outros bem nenhum fazíamos,
Sob uma árvore ao frescor do ~a, com a bênção das areias,
Esquecendo uns aos outros e a nós próprios, reunidos
Na quietude do deserto. Eis a terra
Que dividireis conforme a sorte. E partilha ou comunhão
Não importam. Eis a terra. Nossa herança.
III
Na primeira volta da segunda escada
Voltei-me e vi lá embaixo
O mesmo vulto enrodilhado ao corrimão
Sob os miasmas que no fétido ar boiavam
Combatendo o demônio das escadas, oculto
Em dúbia face de esperança e desespero.
Na segunda volta da segunda escada
Deixei-os entrançados, rodopiando lá embaixo;
Nenhuma face mais na escada em trevas,
Carcomida e úmida, como a boca
Imprestável e babugenta de um ancião,
Ou a goela serrilhada de um velho tubarão.
Na primeira volta da terceira escada
Uma túmida ventana se rompia como um figo
E além do espinheiro em flor e da cena pastoril
A silhueta espadaúda de verde e azul vestida
Encantava maio com uma flauta antiga.
Doce é o cabelo em desalinho, os fios castanhos
Tangidos por um sopro sobre os lábios,
Cabelos castanhos e lilases;
Frêmito, música de flauta, pausas e passos
Do espírito a subir pela terceira escada,
Esmorecendo, esmorecendo; esforço
Para além da esperança e do desespero
Galgando a terça escala.
Senhor, eu não sou digno
Senhor, eu não sou digno
mas dizei somente uma palavra.
IV
Quem caminhou entre o violeta e o violeta
Quem caminhou por entre
Os vários renques de verdes diferentes
De azul e branco, as cores de Maria,
Falando sobre coisas triviais
Na ignorância e no saber da dor eterna
Quem se moveu por entre os outros e como eles caminhou
Quem pois revigorou as fontes e as nascentes tornou puras
Tornou fresca a rocha seca e solidez deu às areias
De azul das esporinhas, a azul cor de Maria,
Sovegna vos
Eis os anos que permeiam, arrebatando
Flautas e violinos, restituindo
Aquela que no tempo flui entre o sono e a vigília, oculta
Nas brancas dobras de luz que em torno dela se embainham.
Os novos anos se avizinham, revivendo
Através de uma faiscante nuvem de lágrimas, os anos,
resgatando
Com um verso novo antigas rimas. Redimem
O tempo, redimem
A indecifrada visão do sonho mais sublime
Enquanto ajaezados unicórnios a essa de ouro conduzem.
A irmã silenciosa em véus brancos e azuis
Por entre os teixos, atrás do deus do jardim,
Cuja flauta emudeceu, inclina a fronte e persigna-se
Mas sem dizer palavra alguma
Mas a fonte jorrou e rente ao solo o pássaro cantou
Redimem o tempo, redimem o sonho
O indício da palavra inaudita, inexpressa
Até que o vento, sacudindo o teixo,
Acorde um coro de murmúrios
E depois disto nosso exílio
V
Se a palavra perdida se perdeu, se a palavra usada se gastou
Se a palavra inaudita e inexpressa
Inexpressa e inaudita permanece, então
Inexpressa a palavra ainda perdura, o inaudito Verbo,
O Verbo sem palavra, o Verbo
Nas entranhas do mundo e ao mundo oferto;
E a luz nas trevas fulgurou
E contra o Verbo o mundo inquieto ainda arremete
Rodopiando em torno do silente Verbo.
Ó meu povo, que te fiz eu.
Onde encontrar a palavra, onde a palavra
Ressoará? Não aqui, onde o silêncio foi-lhe escasso
Não sobre o mar ou sobre as ilhas,
Ou sobre o continente, não no deserto ou na úmida planície.
Para aqueles que nas trevas caminham noite e dia
Tempo justo e justo espaço aqui não existem
Nenhum sítio abençoado para os que a face evitam
Nenhum tempo de júbilo para os que caminham
A renegar a voz em meio aos uivos do alarido
Rezará a irmã velada por aqueles
Que nas trevas caminham, que escolhem e depois te desafiam,
Dilacerados entre estação e estação, entre tempo e tempo, entre
Hora e hora, palavra e palavra, poder e poder, por aqueles
Que esperam na escuridão? Rezará a irmã velada
Pelas crianças no portão
Por aqueles que se querem imóveis e orar não podem:
Orai por aqueles que escolhem e desafiam
Ó meu povo, que te fiz eu.
Rezará a irmã velada, entre os esguios
Teixos, por aqueles que a ofendem
E sem poder arrepender-se ao pânico se rendem
E o mundo afrontam e entre as rochas negam?
No derradeiro deserto entre as últimas rochas azuis
O deserto no jardim o jardim no deserto
Da secura, cuspindo a murcha semente da maçã.
Ó meu povo.
VI
Conquanto não espere mais voltar
Conquanto não espere
Conquanto não espere voltar
Flutuando entre o lucro e o prejuízo
Neste breve trânsito em que os sonhos se entrecruzam
No crepúsculo encruzilhado de sonhos entre o nascimento e a
morte
( Abençoai-me pai) conquanto agora
Já não deseje mais tais coisas desejar
Da janela debruçada sobre a margem de granito
Brancas velas voam para o mar, voando rumo ao largo
Invioladas asas
E o perdido coração enrija e rejubila-se
No lilás perdido e nas perdidas vozes do mar
E o quebradiço espírito se anima em rebeldia
Ante a arqueada virga-áurea e a perdida maresia
Anima-se a reconquistar
O grito da codorniz e o corrupio da pildra
E o olho cego então concebe
Formas vazias entre as partas de marfim
E a maresia reaviva o odor salgado das areias
Eis o tempo da tensão entre nascimento e morte
O lugar de solidão em que três sonhos se cruzam
Entre rochas azuis
Mas quando as vozes do instigado teixo emudecerem
Que outro teixo sacudido seja e possa responder.
Irmã bendita, santa mãe, espírito da fonte e do jardim,
Não permiti que entre calúnias a nós próprios enganemos
Ensinai-nos o desvelo e o menosprezo
Ensinai-nos a estar postos em sossego
Mesmo entre estas rochas,
Nossa paz em Sua vontade
E mesmo entre estas rochas
Mãe, irmã
E espírito do rio, espírito do mar,
Não permiti que separado eu seja
E que meu grito chegue a Ti.
( o texto original pode ser encontrado nesse blog)


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