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Quinta-feira, Fevereiro 17, 2011

As Estantes de Vânia

Oi Queridos!


Minha casa sofrerá uma breve reforma e junto dessa notícia agradável de se ouvir, também recebi outra: encaixotar todos os livros. Imediatamente pensei em como executaria a tarefa. Caixas? Sim, caixas. De nada adiantaria mover as estantes para o centro do quarto, não se poderia abrir a porta e o piano teria que sair e encontrar um lugar na sala - também repleta de livros, estantes e tudo o mais que uma casa comporta. Não tinha jeito - era encaixotar tudo e ponto.

Andei pelo comércio, arranjei o máximo de caixas que consegui encontrar e acho mesmo que algum catador de papel foi dormir com um buraco no estômago unicamente  porque decidimos pintar a casa. Então, feito isso, preparei minha mente e meus braços para  a tarefa - que não seria fácil.

Meu quarto é confortável em termos de tamanho, cabe um piano, uma escrivaninha, uma estante de mais de dois metros de comprimento, um criado-mudo, uma cama e um rack com uma tv e um dvd que  nunca foram  ligados - aliás, no canto em que estão sequer há tomada. Portanto, trata-se de um espaço normal que tem quatro paredes, uma janela e uma porta - e claro, uma excêntrica, a que vos fala, que vive nele. Quer dizer, vivia. Há um bom tempo me mudara sem cerimônias ou remorsos para o sofá da sala.

O lugar estava inabitável para um ser humano. Possivelmente porque eu não abria mais a janela, não consertara o ventilador e a minha escrivaninha estava virando um depósito de papéis pior que as repartições públicas, meu piano um depósito de livros e partituras de todos os tipos, a cadeira da escrivaninha, o parapeito da janela... Muita poeira e pouco sol. E a aflição daquilo tudo.

Acabei dando o quarto para o felino Goya, os livros e as traças. Só entrava nele para pegar livro, colocar outros novos, tocar piano e mais nada.

De repente, deparo-me na condição de ter que mexer naquele oceano de quinquilharias que se tornara aquele cômodo - até eu me indignava com a falta de ordem do recinto. Mas, nada conseguia fazer para melhorá-lo, pois teria que mover os livros e o que eu faria com aquela quantidade de livros? Doar? Já fiz. Doei caixas e mais caixas ano passado para a Biblioteca Pública mais próxima de casa. Impressionante como esses bichinhos se reproduzem: na mesma proporção em que foram doados comprei outros. Li todos. Leio todos - quer dizer, tento. E eu leio muito. No ônibus, na fila do banco, no metrô, na fila do supermercado, em casa, de madrugada - o tempo todo. Faço outras coisas também, mas não sei dar um passo sem levar um comigo.

Comecei por tirar os da prateleira de baixo. Era a única em que havia aguma coerência de assunto - Teoria Política e Relações Internacionais. Depois fui para as outras. Anotei cada livro e numerei cada caixa. Uma organização impressionante para quem não dá a mínima para isso. Levei horas. Uma amiga ligou - eu atendi, o que é raro. Comentei o fato. Não havia chegado nem na metade e já fechava a décima caixa.

Acabei por pensar a minha vida em torno daqueles papéis. Sim, livros e papéis. Não consigo me imaginar sem eles. Nenhuma lembrança existe por si mesma, estão todas atreladas a algo que li ou escrevi. Quem está vivendo por mim? As estórias que crio, os poemas que me doem ou os livros que me trazem liberdade?  Será que é realmente liberdade?

Meus livros têm mais direitos que eu: vivem em condições mais confortáveis; são adorados pelo que são; são tratados com todo o carinho; são generosos; fazem companhia;

Muitos deles são testemunhas de minhas vitórias, de minhas mágoas, de minha alegria, da minha tristeza. Eles são as testemunhas de tudo o que sou.

Às vezes penso que têm vida própria, podem sair de seus lugares e encontrar o mundo todo, abraçar o que para mim é limite.

Às vezes que são carcereiros. E eu, a prisioneira, já não posso viver sem eles. Pois, que outra companhia teria uma pessoa sozinha numa cela a não ser a de quem tem a chave?

Será que eu sou o cárcere?
Será que eu os aprisiono?

quem aprisiona quem? Quem liberta quem?

Certamente eles têm muito mais a contar do que eu jamais terei a vida toda. Certamente há muita dor em cada página e muita descoberta.

No fim, o saldo fora positivo. Apesar do preço pago ter sido alto demais.
Sou uma pessoa melhor através deles, diante deles porque sou apenas a pessoa que lê. Uma pessoa. Apenas.

Curiosidades:

Foram encontrados até agora:

7 cópias do livro Memórias Póstumas de Bràs Cubas de Machado de Assis;
3 de Dom Casmurro;
5 de A Política de Aristóteles;
3 de Platão;
4 de Assim Falou Zaratustra;
1 de Contos Africanos (odiei o livro);
1 de Poemas do Antigo Egito; (a origem é para lá de controversa)
4 cópias de Kant (Crítica da Razão Pura/Prática e A Paz eterna...;
5 de O evangelho de Buda (todas edições diferentes, dentre elas, uma espanhola);
1 Bíblia Sagrada;
1 Bíblia de Jerusalém;
1 Torá;
1 Dhamapada;
3 cópias do mesmo livro do Mattoso Câmara Jr;
1 Rumï;
1 crítica de Rumï;
1 gramática de Tupi/ Guarani (???)
3 cópias da Odisséia de Homero
1 Livro dos Gnomos (????)

Fetiche? Talvez

Conviviam juntos:

A Política entre as Nações, de Hans Morgentau, edição espanhola e Crime e Castigo de Dostòievski;
Diplomacy, do Henry Kissinger com O Grau Zero da Literatura de Roland Barthes;
O Soldado e o Estado, de Huntington, com Grande Sertão: veredas;
Dom Quixote com Teoria do Direito Internacional Público;
A teus Pés, de Ana Cristina Cesar com Os Sertões, de Euclides da Cunha;
T.S Eliot com o Evangelho de Buda;
O Estado, o Homem e a Guerra, de kenneth Waltz com Os contos de Fadas, da Ana Lúcia Merege;
On Violence de Arendt com A História sem Fim, de Michael Ende...

E outras esquisitices...

Foram roubados, que eu saiba e lembre até agora:

2 de Ars rethorica do Aristóteles (mato quem fez isso);
1 Zenon de Platão;
1 A Gaia Ciência de Nietzsche (coloco o nome na boca do sapo)
* todos os Spinozas; (vou descobrir quem e ele me paga)
* Três livros do Dostòievski: O Jogador, O Idiota e Memórias do Subsolo (Quem fez isso vai arder no inferno)
* Poética de Aristóteles, aliás, minha coleção da Metafísica inteira (alguém entra na minha casa sem que eu saiba, só pode ser)
*Todos os livros do Oscar Wilde menos Retrato de Dorian Gray... (vingança!!!)
* Hamlet, Otelo, King Lear (vou dar queixa)
* Longa Jornada Noite Adentro (meus amigos são o quê? Assaltantes?)
* Edição em Latim das Confissões de Santo Agostinho, Satiricon, Cícero e Eneida (além de ladrões, deliram!)

Enfim.

Quando eu terminar falo mais.

4 comentários:

Ana disse...

Opa! Sou candidata ao Rumi e aos Contos Africanos se você não os quiser mais. ;)

Querida Vania, tudo que você disse pode ser verdade. Os livros podem nos aprisionar. E podem nos libertar. Depende da relação que temos com eles.

A sua, sei bem, é das melhores. ;)

Beijo carinhoso!

Vânia Vidal disse...

Ana!

O dos Contos Africanos é teu então - agora vou ter que catá-lo na caixa dos livros para doar/trocar.

Mas... nos meus Rumïs ninguém bota a mão, ok? Posso até emprestar por uma semana... Dá-los, jamais. Foi muito difícil encontrá-los (para comprar).

É... eu tenho uma relação harmoniosa com os livros, embora exerçam sobre mim um certo domínio meio maléfico que me leva a crer gostar deles mais do que das pessoas. Mas, cheguei à conclusão que isso é apenas impressão, como você bem sabe.

bjs
Vânia

Navegar é preciso.. disse...

Olá Vânia,

Eu sei que se desfazer de livros é uma tarefa difícil mas exite um site chamados Livros soltos, onde você deixa livros em praças, shoppings, etc. E depois você pode acompanhar onde eles foram parar.
Mudança é uma oportunidade de nos renovar em todos os sentidos.
Boa Mudança!
Beijos!
Fatima

Vânia Vidal disse...

Fátima, tudo bem?

Boa idéia! Vou escolher uns livros interessantes e deixarei em locais estratégicos para ver onde vão parar.

Abç
Vânia