Páginas

PERFIL

Minha foto
Alguém que falará sobre literatura, linguagem, poesia, filosofia e tudo o mais que acenar para além da borda

Domingo, Novembro 07, 2010

desistência

Tem dias em que você quer jogar tudo para o alto e sair correndo para lugar algum. Ontem e anteontem fui invadida por essa estranha sensação de desistir. Sim, a desistência. Por mais de uma vez durante o dia, enquanto eu resolvia coisas da vida comum (família, banco,etc), tive vontade de ir embora. Deixar tudo pelo meio, pessoas falando sozinhas inclusive, e ir embora. Voltar para a minha casa, para o meu quarto, colocar um concerto de Bhrams bem baixinho, abrir um pouco a janela, deitar na minha cama e ficar quieta. Quieta. Desejei que o mundo estivesse longe, bem longe, muito longe de mim. Mas não respeitar minhas vontades tem sido uma forma de violência que já saiu da autopunição e está à beira da tortura. Cumpri todas as minhas obrigações do início ao fim, como sempre, como todos querem, tentando esquecer que eu sou também uma pessoa, e como tal, tenho medo, tenho cansaço e tenho escolha. A minha escolha era não estar ali. E mesmo assim eu continuei fazendo o meu dever apesar de querer desistir de tudo. Por muitos momentos eu mal consegui ouvir o que me diziam, meu pensamento vagava em mil direções, cortejava a morbidez. E era com um esforço enorme que eu conseguia prestar atenção nas pessoas e naquilo que eu estava fazendo. Um esforço físico de enomes proporções, como uma maratona. Para quê? Por quê? A resposta é simples. Confunde-se desistência com covardia. E covardia é um defeito moral imperdoável. Logo, desistir é ser covarde. Mentira. Não é. Desitir é um verbo transitivo indireto, originário do Latim Desitère e significa renunciar a, não querer continuar, não insistir, abster-se, abrir mão, abdicar. Covardia é um substativo feminino, originário do Latim Coda (cauda). Em francês havia a palavra Couard, ou seja, de cauda abaixada. Portanto covarde se refere ao medo, ao vício da prudência. Sendo assim, existe uma diferença entre os dois termos. Desistir pode ser um ato de coragem até, afinal, nem sempre é fácil abdicar ou renunciar a alguma coisa. A covardia está relacionada à omissão, à omissão da ação. A desistência não é a omissão da ação, é justamente a ação que não é levada a têrmo. Apenas. A gente acaba se deixando contaminar pelo olhar alheio, e pelo medo do julgamento deste, acaba por fazer o que vai de encontro com a própria natureza. No caso, a minha covardia residiu em não desistir, não o contrário. E é horrível chegar em casa à noite, sabendo que se foi covarde consigo próprio. É aniquilante. Então, segue a lição. Desistir é uma contingência. Covardia é uma condição.

Da próxima vem em que isso acontecer, porque vai ocorrer, é fato, assim como é fato eu ser uma pessoa, irei embora.

2 comentários:

♥VERONICA♥ disse...

Oi!Já pensei em "ir embora",da próxima vez...Mas chegaram as "próximas vezes" e eu permaneci...Talvez eu tenha optado pela condição de ser covarde...É o que vêm a minha mente neste momento...Meus pensamentos estão tortos,debilitados,ora estão em marte,ora estão na lua e nunca no seu tempo e espação adequado.
Beijos...

Vânia Vidal disse...

Oi Verônica!

Ser covarde não é bem uma opção. Muitas vezes escolhemos alternativas de vida que não nos agradam unicamente porque são do tamanho de nossas forças, e isso não é falta de coragem não, isso é humano.

Vontade de ir embora acontece com muita freqüência, se a gente for avaliar, tanto na vida como acontecimento temporal e biológico, como para pessoas sensíveis face à vida (existência) que levam.

Entenda, pessoas sensíveis têm muito mais o pé pro "lado de lá" do que para o "lado de cá", e isso causa não só sofrimento como estranheza, uma certa sensação de não pertencer a qualquer parte, de ser incompreendido irremediavelmente.

Isso, longe de ser apenas o que nos causa dor, e portanto, o que nos aprisiona, é também o que nos transforma naquilo que somos: uma forma generosa de ver e se colocar no mundo, de ver o próximo e de perdoá-lo. Uma alternativa, apenas, de ser.

Não é todo mundo que agüentaria um minuto sequer da vida que levamos (e vc sabe a que me refiro.), mas a vida é dura para todos, igualmente, disso ninguém escapa, o sofrimento é um bem democrático...

A diferença é fazer toda a bagagem de sofrimento que levamos uma forma de ajudar outras pessoas que enfrentem a mesma situação, ou que tenham menos experiência de vida, ou seja, engrandecer o mundo, tanto por ações, como por obras, legados - o nosso trabalho, nossas metas e nossos anseios.

O caminho é menos importante do que a jornada.

E cá entre nós: minha cabeça vive em saturno, e eu não acho isso nada demais. Aliás, ninguém (porque eu sempre fui assim, assumo).

Para lhe dizer a verdade, eu nunca tive a minha cabeça muito na terra mesmo...

E se você gosta de estar com a cabeça na lua, ou em marte, por que não aproveitar? Deixe os outros pensarem o que quiser...

Concentre-se, isso sim é importante, em ficar bem. Muito bem. O resto é detalhe.

bjs
Vânia